sábado, 23 de maio de 2015

Sobre blogs e blogagens

Ano passado fez dez anos que comecei a blogar. "A priori", os (mortos?) fotologs, para dar notícias para a família, principalmente da Bibizoca, que crescia em outro país. "A posteriori", os textos foram se tornando mais constantes.

Blogueiro entende blogueiro. E percebo uma característica muito presente em todos os escrevedores de blog: um dia, a gente cansa. Noutro, a gente volta.

Assim aconteceu comigo. Cansei da blogsfera porque achei que estava se transformando em um universo chato.

Através de um blog, fazemos amigos. O advento do Facebook trouxe duas vertentes para bloqueiros: a primeira, foi a proximidade. A segunda, a distância do instrumento que fez com que as pessoas se conhecessem.

Passei a sentir falta de blogs reais. Temáticos ou não. Com dicas legais ou inúteis, depende de cada um. Mas blogs verdadeiros.

Alguém inventou a tal blogagem coletiva. Se blog é um diário para contarmos nossos encontros com a vida, como fazer árdua tarefa de forma coletiva? Hoje falaremos sobre sabonete e bola de cristal. Todos linkan seus textos com a "blogueira chefe criadora da bobagem coletiva". Assim, todos escrevem sobre sabonete e bola de cristal, inclusive quem não toma banho e nunca viu uma bola de cristal. Ficou chato.

Com o Facebook, passa-se a conhecer mais blogueiros. Conhece-se "panelas", tribos, grupos que se identificam. Entretanto, o Facebook é uma ferramenta sócio-virtual que consome tanto tempo, que os blogs param de serem lidos, de serem escritos. Perde-se o tesão pela coisa.

Tive vontade de voltar. Cinco meses fora do Facebook fizeram toda a diferença na minha vida. Sinto uma falta enorme de pessoas que conheci na rede. Amizades que desvirtualizaram, blogueiras que se tornaram amigas virtuais mais presentes, novas blogueiras que nunca sequer tinha lido o blog. 

Não faço blogagem coletiva. Não faço publicidade no blog. E há muito tempo, leio os blogs sem deixar comentário. Tem gente que não gosta. Eu não me importo: nem que leiam o meu sem comentar (aliás, repito isso há muitos anos), nem quem se chateia por eu ler sem deixar comentário. 

Na blogsfera, não existe regra. Cada um é dono do seu espaço e faz dele o que bem entender. Quem gosta, volta. Quem volta sempre, cria vínculos. Nem sempre, entretanto, temos tempo de interagir com o grande número de amizades que fazemos. O que não quer dizer que seja descaso com as pessoas. Apenas o tempo, sempre ele, o senhor dos meus dias!

Hoje estou de volta. Devagar, quase parando, mas querendo registrar algumas coisas que se passaram em 2014 e ficaram para trás. Farei os registros aos poucos. Que venham novos amigos. Que os velhos voltem. E quem nunca foi, que continue!

p.s.: decidi voltar a blogar por dois motivos: registrar minha vida e entender o porquê de meu blog receber tantas visitas diárias, semanais, mensais, mesmo sem atualizações. Algo de curioso deve haver, ou no blog, ou na minha vida! 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Sobre a Vivara e a grande farsa

Há seis anos, escrevi sobre minha decepção com a Vivara. Decidi que não compraria mais nada naquela loja.

Minha decisão ganhou força ainda maior quando, seis meses após a colocação, pela segunda vez, do diamante no meu porta-alianças, ele caiu. De novo. Novamente. Mais uma vez. Assim mesmo, redundantemente. Uma jóia cara, mas não apenas pelo valor material. Pela dificuldade que Toruboi teve em comprar tal presente. Dar um diamante para a mulher que lhe deu seus filhos. Como reza a lenda, o diamante que sela o amor verdadeiro.

Sentimentos confusos: o material, o emocional, a raiva pela farsa.

Os anos se passaram. Ano passado, quando Toruboi mudou-se de cidade, decidi presentea-lo com algo que "meninos" gostam e que não é carro: relógio. Passando pelo shopping, achei um quiosque com diversas marcas e modelos. Escolhi um que achei combinar com a ocasião. Para que ele usa-se em seu primeiro dia no novo trabalho.

Efetuei o pagamento e qual não foi minha surpresa ao pegar a sacola? O quiosque pertence a maldita Vivara. Compra paga, melhor relevar e ir embora. Fui.

Semanas se passaram e o relógio parou de contar a passagem do tempo. Fomos a uma loja da Vivara. Quase dois meses se passaram até que devolvessem o relógio. Voltamos para casa, mas só a gente. O tempo do relógio parou antes de entrar em casa. O que fazer? Ir direto ao "pequenas causas", entrar com uma ação pedindo danos morais, materiais, psicológicos, emocionais, temporais? 

Voltamos na semana seguinte. Deixamos novamente o relógio. Mais três semanas para o conserto. Dessa vez, chegou em casa funcionando. E começou a semana funcionando. Contudo, trabalhou menos que Deus ao fazer o mundo. Toruboi tomou a frente e deu o ultimato: QUERO UM RELÓGIO NOVO. Deram. Vamos ver quanto tempo funciona.

Enquanto isto...

Bibizoca ganhou um relógio no seu aniversário de 15 anos. Localizamos quem o ofereceu: os avós paternos. E eis que descobrimos que o relógio está sem funcionar. Com CPF do meu sogro em mãos, lá vamos nós para a Vivara. O relógio ainda está lá. Há um mês. Eles não ligam para dizer se ficou pronto, se precisa jogar fora. Temos que ligar. Esperar localizarem o pedido de reparo. E ouvir que não foi localizado. Aguardamos a ligação. Ela não vem. Então vamos nós até a loja.

Relógio reparado. Vamos ver por quanto tempo funcionará. Meu porta-alianças agora é usado com o buraco do diamante para baixo. Assim não fico lembrando que falta a pedra. Qualquer hora, coloco uma pedra sintética para vira-lo para cima. Vivara? Estamos dispensando até os presentes!

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Sobre um longo dia

Acordei. Ainda de olhos fechados, levantei e chamei a Bibizoca. Faltava um bocado para as seis. Dormi. Acordei de novo. Chamei o Peteleco. Bibizoca veio barba: "mamãe, precisava ter acordado antes!". Tento argumentar que a chamei. Em vão. Ele se troca, toma café, escova os dentes, vai para a escola. Ela faz aquela batucada típica de escola de samba em véspera de desfile. O batuque final fica por conta da porta. Alívio. Fecho os olhos. Acordo. Preciso assistir a aula de Filosofia. A última. A cabeça tende a doer. De sono. De cansaço. Não posso perder a aula. A matéria por mim já foi aprendida. Admirar a última aula com a Gabriela, contudo, não é algo a ser deixado para trás. Levanto, tomo uma ducha fria, coloco a roupa e vou. Com sono. Muita maquiagem no carro, som alto para acordar e a Coca Zero se junta a mim e ao Sérgio Reis gritando nos auto-falantes do carro. Entro no campus. Estaciono. Dou sorte: o segurança de hoje já me conhece e não manda chamar o chefe dele para autorizar minha entrada.

Entro na sala antes da professora. Dou risada com os amigos. Com sono. Cansada. Ela entra com seu sorriso e anuncia o filósofo do dia. Penso que hoje poderia ser qualquer um, menos ele. Lembro-me, contudo, que em breve teremos pausa para o café. A teoria é grande. Muita informação. Hora do café bem em cima da hora. Biblioteca, cantina, uma fatia de torta de frango, muita azia, sala de aula. Mais um filósofo. Esse já bem estudado por mim. O sono domina. Nem a eloquência da professora, que tanto me encanta, permite meus olhos abertos. Finda a aula. Findo o semestre. Finda a manhã.

Volto para a casa com o Sérgio. Entro correndo. Dou atenção para o Sushi que está carente. Lavo as mãos. Deixo o prato do Peteleco dentro do micro-ondas. Tenho que preparar uma aula. Tenho que verificar possíveis locais para o lançamento do livro que acontecerá em oito de novembro. O tempo corre. E meus olhos se fecham. Corro junto com o tempo para abri-los. Peteleco chega em estado gripal. Melhor preserva-lo. A excursão de amanhã será cansativa. Nada de escola de esportes. Almoço, lição, tevê, youtube..

A tarde adentra e meu sono já não consegue mais ser dominado pela minha mente ou por meus compromissos. Durmo. Profundo. Gostoso. Acordo e relembro da lista de tarefas. Dou lanche da tarde para o Peteleco. Desço até o térreo. Tiro roupas do varal. Coloco outras para bater. Arrumo meu quarto e me preparo para eliminar qualquer coisa da minha lista de tarefas. Decido pela releitura de 1984. Herança do meu pai, que me apresentou Orwell, mesmo em sua ignorância acadêmica e sabedoria de vida. Mesmo eu tendo lido a obra já algumas vezes. Retomo na página 98, na qual parei domingo. Bibizoca chega da escola. Acharam seus documentos roubados na segunda-feira. Prejuízo apenas material. Dou atenção para ela. Peteleco chega e se junta a nós. Sushi também. As crianças brincam, brigam e eu na página 98.

Marido Toruboi liga. Está embarcando para outro estado. Desejo-lhe boa sorte. Volto para Orwell. Página 98. Ligo para a coordenadora de idiomas do colégio do pequeno. Uma hora de conversa. Precisamos resolver algumas coisas. Lembro-me do meu livro de francês que não chegou. Preciso dele para sanar algumas dúvidas. Aula de espanhol para lecionar. Pulo. Tenho que chegar na página 99.

Peteleco toma banho. Bibizoca toma banho. Sushi só aos sábados. Peço para que um desça e estenda as roupas. O outro suba as roupas da lavanderia. Paramos no segundo andar. Acho que estamos todos cansados. Coloco-os para jantar e subo. Orwell. Será que preciso mesmo lê-lo? Sim. Obrigação moral. Pela Gabi que tanto se esforça em suas aulas. Devo isso a ela. A retomada que ela deu das minhas antigas aulas de IED, TGE e Sociologia Jurídica, ministradas por grandes mestres em 1998 ficarão agora para sempre.

Bibizoca precisa de ajuda: vai apresentar um seminário. Memórias de um Sargento de Milícias. Viajo na história com o lado esquerdo do cérebro, retomando minha oitava série na escola pública e a maravilhosa professora Eunice que fez com que o menino Leonardo permanecesse na minha vida, dando nome ao meu filho. Retomo os dois lados cerebrais para minha filha. Oriento-a em como apresentar o trabalho. Os dois escovam os dentes e dão boa noite. Orwell. Página 98. Agora vai. 

As crianças voltam. Querem orar. Oramos e agradecemos pelo dia de hoje, pelo de amanhã. Eles se vão e eu continuo, agradecendo por tudo que fui capaz de fazer na vida até hoje. Separo a roupa para amanhã cedo. Preparo o material da aula. O pijama ainda é o mesmo do sono vespertino. Deito-me. Agora vai. 

Toca o celular. Número desconhecido. Será que aconteceu algo com o Toruboi? Não. Ele já está em outro estado e o número é de São Paulo. Não atendo. O telefone de casa toca. De seis ramais, não acho nem um sequer. Toca o celular de novo. Atendo. É o gerente do banco. Avisa-me que estamos perdendo diariamente valor considerável. Melhor diversificar os investimentos. Explico que não é hora. Desligo o telefone. Já não aguento olhar a página 98. Será que perderei alguma coisa se pular para o próximo capítulo? Não sei. Melhor registrar o dia de hoje: eu, meus filhos, meu marido, minhas lembranças, a última aula da Gabriela Saab, a conversa com a Magda, com o Leonardo - o gerente. O terceiro na minha vida em um dia. Tudo bem para quem mora em um condomínio com dezoito imóveis habitados e nele há cinco Leonardos. Sei que Orwell nunca escreveu um Leonardo. Nem na página 98.

Ainda são 20h30. Meu Facebook continua trancado. Meu Whatsapp lotado de mensagens. E-mails sem esperança de respostas. Uma pilha de trabalho me espera. Outra pilha de coisas para estudar. Uma terceira de burocracias para resolver. Todo mundo sem passaporte. Embarcamos em exatos 45 dias. Agora é só pagar, agendar, fazer os documentos, busca-los e...fazer malas, filas nos aeroportos, passeios, museus, lojas, praia, cassino, frio. Sem neve. Mais um ano sem visitar o meu país. Chile, "no llores por mí". Pretensão. 

Sinto-me como um "garoto-soldado" sendo usada na guerra do dia-a-dia. Apenas 24h para tudo. Como? Cadê os Direitos Humanos? Chega de bobagem. Sou feliz. Tenho casa, trabalho, alegria, problemas, filhos, cachorro, marido. Vivo em harmonia com as pessoas que me rodeiam. Não tenho inimigos. Sou feliz. Oro pelas crianças-soldados recrutadas.

Última linha. Não fiz nada da vida hoje. Só durmo quando sair da página 98. Vou dormir sem pensar em Orwell como pendência. Vou até o fim.

p.s.: Gabriela Saab é mais que uma jurista. Mais que uma professora. É uma das pessoas que vêm para fazer a diferença. Professora inata, aluna eterna. Procurem pelo trabalho dela, comprem seu livro "Criança ou Soldado". Não é uma publicidade. É uma forma de difundir um trabalho tão importante sobre um assunto que, até dois meses atrás, eu desconhecia.