sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Sobre o medo - uma reflexão em final de tarde

Era pra ser leve e de repente percebi a intensidade da coisa, o que fez com que minha brincadeira de fim de tarde se tornasse algo mais sério.

Havia acabado de almoçar um prato de comida bem saudável e estava com o corpo leve. Pensei em subir na balança e tive medo. Um medo horrível de lidar com a realidade. Há meses desisti da balança e optei por ser feliz. Assim tem sido.

Resolvi perguntar para os amigos no Facebook sobre seus medos. Deixaria a “brincadeira” rolando enquanto estudaria ou trabalharia. Contudo, o aplicativo no tablete começou a apitar sem parar, recebendo mensagens. Achei que meia dúzia de pessoas diriam que tinham medo de barata, de escuro ou de ficar sem luz no dia do último capítulo da novela.

Ledo engano. Cada um se desnudou e revelou seus mais profundos medos.

Quando comecei a estudar Psicanálise, dizia para todos que ninguém viverá, daqui muitos poucos anos, sem terapia. E ao ler cada resposta, tive mais e mais certeza.

Quem não tem medo da morte? Qual o pai ou mãe que não se apavora diante da possibilidade de perder um filho? A violência que assombra o mundo assusta qualquer pessoa. Para mim, entretanto, são medos da vida, comum a todas as pessoas dotadas de sentimentos. Nunca conheci alguém que me dissesse não ter medo da morte. Eu mesma alimentei até os meus trinta e sete anos um medo visceral de partir e deixar meus filhos. Porque minha avó paterna, a quem não cheguei a conhecer, partiu com essa idade. Passei no teste. Então veio o medo dos quarenta e quatro, idade com a qual minha tia paterna se foi. Do mesmo câncer da minha avó. Como passei a cuidar da vida, da alma, do corpo, do espírito, descobri rápido que do mal que eu tinha medo, eu não morreria. Sem indícios, com exames “lindos” e a vida seguindo.

Depois de tudo que meus amigos me responderam, descobri que o maior medo da vida é o medo. Porque quando se fala dele, não há tempo para refletir ou para ser leve. É uma coisa automática: medo de perder quem ama, medo de deixar quem ama. Refleti e por tudo que estudei sobre o cérebro humano, concluí que o medo é inerente à vida. Nao dá para viver sem ele. Entretanto, dá para levar o dia-a-dia de forma mais leve e deixar o medo fluir….sem medo!

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Sobre as lições que passamos ou aprendemos

A virtude do conhecimento está no saber. Entretanto, saber não basta para ser sábio. A sabedoria vai muito além de tudo que o mundo acadêmico titula um indivíduo. Além dos conhecimentos da vida. Saber é algo complexo que envolve características pessoais de cada ser, coisas que estão no âmago da alma ou do coração.

Estava postando um documento em uma plataforma virtual quando o nome de M. apareceu na tela do computador. Curiosa que sou, fui procurar conhecer um pouco mais sobre M.

Descobri que, fora a formação “stricto sensu”, M. possui quatro graduações. E mais um sem número de titulações “latu sensu” e todos os dias, quando entra nas salas de aula das instituições de ensino superior, nas quais leciona, nunca precisou contar nada para ninguém. Porque M. mostra na prática aquilo que sabe e com toda a propriedade, ensina sem deixar quaisquer dúvidas. Tem vezes que penso que M. é um tipo de Google humano. Pergunta feita, resposta dada, com polidez, educação e respeito.

Conheço E. Fui sua aluna por um ano. Sem dúvida nenhuma, de todos os docentes que já passaram pela minha vida, e foram muitos, posso colocar E. entre as melhores. Na época em que fui sua aluna, E. ainda não possuía formação “ stricto sensu”. Nem precisava. Quando E. discorria sobre grandes educadores, sempre imaginava o seu nome fazendo parte daquele hall. E. fez e faz a diferença todos os dias. Trabalha no mesmo grupo de ensino que M., mas enquanto M. faz a diferença lecionando, hoje E. dirige uma unidade do Grupo. Não a toa, está entre uma das dez melhores do Brasil de acordo com os dados do ENEM.

G. é uma moça muito nova. Não completou ainda suas três décadas de vida. Vem de família que atua na área a qual se formou. Graduou-se na maior instituição de ensino do país. Ali também fez pós-graduação. E Mestrado. Junto com outro Mestrado que concluiu na Europa. Hoje vive fora do Brasil, devido ao seu Doutorado. G. Pode exercer qualquer profissão que quiser. Escolheu ser docente. O magistério jamais poderia ser o mesmo sem a figura de G. Domina qualquer assunto, sabe se impor, sabe silenciar uma sala de aula sem pedir para que o silêncio aconteça. Porque a sede de aprender do corpo discente quando G. entra em uma sala de aula é grande. Não aprender por aprender. Aprender o que G. tem a ensinar. G. deixa saudade e lágrima por onde passa.

I. tinha vinte e sete anos quando foi minha professora. Na época, já doutora. De família simples e humilde, foi buscar a “sorte” que tantos almejam na vida sentados. Aos dezessete, saiu de casa em busca daquilo que acreditava. Voltou trazendo seus diplomas e o conhecimento que adquiriu. Ao entrar na sala de aula, colocava todos os tópicos no quadro sem precisar de papel. Estava tudo dentro da sua cabeça. Assim, I. faz despertar todos os anos o desejo e a curiosidade para aprender aquilo que ela ensina. Aquilo que é chato para quem não gosta, mas obrigatório para vida. No entanto, o chato se torna lúdico com a forma que I. ensina.

Poderia passar a tarde toda escrevendo sobre G.s, I.s, E.s, M.s que intermediaram a formação do meu conhecimento. Contudo, me bastam quatro exemplos. Houve melhores, houve muitos exemplos horríveis. Da vida, entretanto, levo as boas experiências.

O conhecimento e domínio de algo não faz ninguém melhor ou pior que outrem. Não importa título, diploma, tampouco o local que o indivíduo estudou. E nem se não estudou. O que faz cada um de nós melhores ou piores é a forma com a qual nos apresentamos diante do próximo: é o respeito, em primeiro lugar a nós mesmos; logo, ao nosso semelhante. Independente de religião, raça, orientação sexual, time de futebol, partido político, forma a qual veio ao mundo ou como foi feita a primeira fase de lactação de cada um. Respeito independe de convicção. Está dentro de cada um saber respeitar.

Qual o porquê de tantas palavras? Porque ontem, “Y” entrou na sala. Poderia ser “X”, mas o “y” nada mais é do que um “x” incompleto, faltando uma perninha. E se falta uma perninha, faltam muitas outras coisas. “Y” desenvolveu na vida uma coisa que nomeei como “síndrome do pequeno poder”. Acomete os mais diversos indivíduos no planeta. Não é um “fenômeno” que acontece no Brasil, mas mundial. Acontece com o representante de sala. Acontece com o síndico do condomínio. Acontece com o indivíduo que adentra uma sala de aula achando que só o saber basta para ser chamado de professor. Dá até uma certa vergonha fazer parte da mesma classe trabalhista que “Y”. No entanto, existem muitos espalhados por aí. “Y” detém o conhecimento. Sabe passá-lo adiante com propriedade. Mas falta-lhe algo: respeito próprio; logo, não sabe respeitar o seu próximo. “Y” precisa contar seus louros em todas as aulas. Precisa “ser”; precisa também “ter”. Quem “tem”, não conta pra ninguém. Quem “é”, não precisa dizer; o ser e o ter são perceptíveis aos olhos de todos. “Y” é o dono da bola quando entra em sala. Muito mais dono da bola do que um grupo três ou quatro crianças em seus seis, sete anos de idade, na aula de Educação Física. A bola é de “Y” e ninguém joga. “Y” acredita que com sua postura arrogante, pedante e piegas, tem o respeito dos alunos. Não percebeu ainda que os alunos querem apenas sugar seus conhecimentos. Quando “Y” vira as costas, carrega com ele a imagem negativa como ser humano que passa e leva com ele uma infinita lista de adjetivos negativos.


A escolha é individual. Escolhemos a humildade ou a arrogância. E como tudo na vida, nossas escolhas dirão quem somos. Com quem você se identifica?

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Sobre a dor de cabeça. De novo.

São décadas de dor de cabeça. Nada que chegue a meio centenário. Mas...décadas.

Muita gente costuma dizer que as piores dores que existem são as dores de um parto, as cólicas de rins e dores de dentes. Discordo em gênero, número e grau. Porque dor não se mensura. Qual é o instrumento que mede a intensidade de uma dor? Eu, que já tive as três mencionadas, afirmo que nem umazinha sequer é maior que a dor de cabeça.

Desde que me lembro de alguma coisa na vida, lembro que já tinha dor de cabeça. Tive de todos os tipos: enxaqueca, sinusite, acidente de carro...toda e qualquer forma de dor de cabeça, tive a infelicidade de sentir. Trabalhei por alguns anos na Avenida Paulista, e naquele período, por algum motivo, vivi um dos momentos de grandes crises. Fui socorrida de ambulância por não ter condições de sair de onde estava. Pronto socorro? Por um bom tempo, entrava praticamente como V.I.P. em um hospital de São Paulo e ia direto para a internação. Só remédio bem forte na veia.

Com o passar dos anos e dos traumas causados pelo excesso de dor, decidi procurar especialistas. Passei a fazer tomografias e ressonâncias. Houve momentos nos quais eu pedia para que fosse encontrado um tumor na minha cabeça, pois ele seria de lá arrancado e a dor cessaria. E nunca apareceu nada. De modo que eu e minha dor permanecemos unidas.

Quando Peteleco nasceu, alguém me encaminhou para um médico neurologista especialista em CURAR, isso mesmo, C-U-R-A-R a dor de cabeça. Não aceitava convênio. Marquei particular. Esperei por cinco horas para ser atendida. Mas as mulheres (por que apenas mulheres?) do consultório, solidárias umas com as outras, me incentivavam: "espera, pois ele curou a prima da colega do vizinho da minha sogra, e por isso estou aqui", Ali permaneci até chegar a minha vez. Narrei minha saga e ele com muita sabedoria me disse que noventa e cinco por cento do que eu narrava eram sintomas de enxaqueca, mas ele não poderia me tratar desse mal pelos cinco porcento faltantes. Deu-me duas medicações para tomar diariamente, pediu que eu fizesse um diário narrando minha rotina e os momentos nos quais a dor se instalava, para ver se estabelecíamos um padrão. Durante os quarenta dias, nada de dor. Não voltei ao médico.

Um par de anos se passou e eis que a dor voltou com tudo. Claro que no interim, tive dores pontuais e que passaram apenas com analgésicos comuns. Entretanto, quando ela voltou, veio para ficar. Estava estacionando o carro sem conseguir enxergar as pilastras da garagem. Uma vizinha que de longe observava, me abordou oferecendo ajuda. Comecei a chorar. Sim, eu choro de dor. Compadecida da minha dor, ela de imediato ligou para um médico neurologista amigo da família dela. A consulta custava uma cifra gigante de dinheiro, mas ela disse que ele me atenderia de graça se eu não pudesse pagar. Pude pagar, mas teria aceitado sem qualquer orgulho se não pudesse. E lá fui eu no dia seguinte. Para minha surpresa, a conduta, as perguntas e o tratamento dele foram idênticos ao médico de anos atrás. Segui a risca. E a dor sumiu.

Há quatro anos me trato com medicina preventiva. Nada melhor que estudar nosso corpo e nosso organismo e trará-los antes de surgir doença. Faço check-up anual, consulto-me de três a cinco vezes por ano e sigo a vida. Até que...

Dia cinco passado, tive consulta. Não ia à médica desde abril. Um mês antes, havia passado com meu ginecologista. Ambos me disseram que eu estava ótima, com exames super saudáveis e comemorei nas duas consultas. No feriado, comecei a ter dores de cabeça. Tomei analgésico normal. A dor continuou. Analgésico mais forte. Mais dor. Analgésico especial para enxaqueca. Dor intensa. Analgésico com anti-inflamatório. Mais dor. E mais, e mais, e mais.

No último sábado, tive uma explosão de dor. Chorei compulsivamente, o que faz com que a dor piore. Não havia o que piorar. A dor fazia minha cabeça explodir. 

Ontem, quando Bibizoca chegou da escola, me viu jogada na cama. Imediatamente, no seu senso de urgência que tanto me orgulha, pegou o telefone e ligou para minha médica. Meu anjo da guarda a quem oro e peço proteção. Ela orientou minha filha sobre qual medicação me dar e saiu para vir a minha casa em meu socorro. No caminho, o bebê dela teve um acidente de bebês e foi tempo de ela socorrer o filho e correr para fazer um parto, já que ela também é obstetra. Hoje, quando acordei, sai de casa, mas em vão. A dor me acompanhou até que eu perdesse a razão. Enquanto me dirigia ao consultório da minha "anja", ela estava na minha casa me deixando o medicamento. Nos encontramos na clínica.

Fui medicada com drogas fortes, voltei pra casa suando frio, alimentei-me e deitei. Esperando a dor passar. Com fé. E a dor começou a passar. E passar. E melhorar.

Neste momento, posso dizer que tenho apenas a ressaca da dor. Após nove dias de dor latejante, ela foi embora. Minha médica acaba de me ligar. E minhas amigas. Minha professora também. Minha filha. Meu marido. Porque minha dor de cabeça é tão intensa, que quem me olha tem a mesma certeza que eu tenho: o fim está próximo.

Tudo na vida serve de lição. A dessa crise foi a lição de que ninguém pode ter cefaleia por mais de trinta horas seguidas. Não é normal. Passei mal por tantos dias por acreditar que no próximo momento a dor passaria. Mas jamais vou esperar tanto tempo para buscar socorro de novo.

Fica aqui a dica para tantas pessoas que sofrem desse mal: procurem ajuda o mais rápido possível. No meu caso, não tenho hipertensão ou qualquer outro problema de saúde que faça a cabeça doer. O que desencadeia uma crise, PODE ser ansiedade. O que não há comprovação. Para não esperar uma próxima crise, vou começar a meditar e buscar controlar a ansiedade, grande mal do século, em busca da salvação que não seja através de drogas!

Tchau dor chata. Vai e fica!